domingo, 4 de fevereiro de 2018

Opinião: As Serviçais, de Kathryn Stockett


Estamos nos anos 60, na cidade de Jackson, Mississípi, Estados Unidos da América. Vive-se dias turbulentos, destacando-se a luta pelos Direitos Civis. Muitas pessoas aceitam o seu destino, outras desejam mudanças. É neste ambiente que se cria uma forte cumplicidade entre Skeeter, uma jovem branca sonhadora recentemente licenciada, Aibileen e Minny, duas empregadas negras que, lá no fundo, querem lutar por uma vida melhor. Skeeter, inspirada pela ternura da sua antiga empregada negra, Constantine, decide escrever um livro sobre as experiências, boas e/ou más, das mulheres negras como empregadas em casas de famílias brancas. Apesar da força de vontade, como irá este trio enfrentar uma cidade que respira ódio e indiferença?



Já tinha ouvido falar na adaptação cinematográfica deste romance de estreia de Stockett e de como é uma ótima forma de dar início (aliás, continuidade) à conversa sobre o racismo. Engana-se aquele que pensa que o racismo já não existe só porque as leis são para todos e devem ser respeitadas por todos. O racismo não tem a ver apenas com um sistema judicial, também tem a ver com a estrutura da sociedade. Vivemos numa sociedade em que ainda se julga uma pessoa de acordo com a sua pele. O racismo, muita vezes, é a base do bullying, do desrespeito, da violência. Em muitos casos, chega a provocar mortes. Como seres racionais, deveríamos ser melhores do que isso e deveríamos lutar contra o mal que é o racismo. E é isso que Stockett procura fazer através d'As Serviçais.



Imagem retirada do Pinterest.


Este romance parece narrar histórias verdadeiras, uma vez que a autora soube interligar factos históricos, como mortes de grandes ativistas negros, e experiências das personagens criadas por ela, como Aibileen e Minny. Temos, por um lado, Aibileen, uma mulher pacata que trabalha para uma família branca que ignora, quase por completo, a filha mais nova e vive muito de acordo com uma das mulheres mais racistas da cidade, Hilly Holbrook. Por outro lado, temos Minny, que tem uma língua afiada e, depois de ter sido despedida por desafiar a patroa, acaba por ir trabalhar na casa de uma mulher branca um pouco estranha. São elas as grandes figuras do livro de Skeeter, a jovem branca que não entende como as pessoas são capazes de verem os negros como sendo inferiores. Apesar de ela ser branca, Skeeter é uma personagem que nos ajuda a ver outros problemas baseados na diferença, mas, desta vez, na de género. Ela é constantemente "atacada" por não andar à procura de um futuro marido e por sonhar por um emprego importante em Nova Iorque em vez de aprender como ser uma boa dona de casa. Ela também é um exemplo das pessoas brancas que gostariam de ajudar na luta pela igualdade, mas viviam no perigo de serem descobertos e irem para a prisão por contestarem a autoridade.
São, então, personagens muito diferentes. Idades diferentes, cor de pele diferente, estatutos diferentes. Contudo, semelhantes na determinação, na capacidade de sonhar e na força. São um trio inspirador. São, ainda, os alicerces deste romance, ou seja, são os pontos fortes deste livro chocante.
Uma outra personagem que também merece destaque é Hilly Holbrook. Hilly é uma mulher branca que praticamente domina a vida social da cidade de Jackson. É extremamente racista e hipócrita, pois é ela que organiza eventos de caridade para ajudar crianças que passam fome em África, mas, ao mesmo tempo, acredita que os negros são pouco inteligentes e estão cheios de doenças que podem matar os brancos. É uma personagem irritante devido à sua ignorância, mas é tão importante como as outras já referidas, já que ela é a representação dos racistas, pessoas ignorantes e convencidas de que são superiores e que pensam que os outros devem viver de forma submissa.
Portanto, no geral, a autora fez um excelente trabalho na criação das personagens, pois tornou a sua mensagem muito mais forte, apelativa e real.

Imagens da adaptação cinematográfica d'As Serviçais (fonte: Pinterest).


A escrita é simples, mas tocante. É eficaz na transmissão de valores e de mensagens. Consegue prender o leitor à história. Além disso, como a história é narrada a três vozes, temos, então, uma escrita versátil, na medida em que essas mesmas vozes estão bem diferenciadas umas das outras. O problema está na edição ou na tradução. Ou o problema talvez esteja em ambas. Não li a versão original, mas acho que a tradução não está tão fiel à fonte como deveria. Além disso, a edição, mais concretamente a revisão do texto, apresenta muitas falhas. Aliás, muitos erros presentes neste livro deveriam ter sido evitados, pois são erros horríveis numa obra literária, como vírgulas entre o sujeito e o predicado, por exemplo. 
Apesar disso, Stockett tem muito talento, quer a nível formal, quer em relação à criação de linhas narrativas interessantes.


Em conclusão, As Serviçais é um livro inspirador que nos revolta por nos mostrar o lado feio do ser humano. No entanto, incentiva-nos a usar o lado bonito,o lado da bondade, da compreensão e do amor. Com personagens extremamente reais e diversificadas, uma escrita arrebatadora e mensagens fundamentais, vale a pena ler As Serviçais.


Classificação: 4.5/5 estrelas.



sábado, 27 de janeiro de 2018

Prendas de aniversário!

Fiz 21 anos no passado dia 19 de janeiro e, claro, recebi alguns livros!


Apresento-vos, primeiro, os romances portugueses que recebi. Recebi dois de autores diferentes, sendo que já conhecia um deles, Afonso Cruz (li Os livros que devoraram o meu pai- A estranha e mágica história de Vivaldo Bonfim para uma das cadeiras do meu curso). Fiquei contente quando vi que tinha mais um livro do autor.



Sinopse retirada do site da Bertrand: «Apesar da beleza da paisagem, dos campos de arroz, do verde omnipresente, dos templos hindus, dos macacos zangados, uma das melhores coisas que trouxe de Bali foi uma oferta do João, que me embrulhou e ofereceu uma palavra, talvez duas: Jalan significa rua em indonésio, disse-me. Também significa andar. Jalan jalan, a repetição da palavra, que muitas vezes forma o plural, significa, neste caso, passear. Passear é andar duas vezes. (…) Passear é o que fazemos para não chegar a um destino, não se mede pela distância nem pela técnica de colocar um pé à frente do outro, mas sim pelo modo como a paisagem nos comoveu ou como o voo de um pássaro nos tocou. É um pouco como a arte, tem o valor imenso de tudo aquilo que não tem valor nenhum. Pode não ter razão, destino, objetivo, utilidade, e é exatamente aí que reside a riqueza do passeio. Não existem profissionais do passeio. Chesterton, que era um grande apologista do amador, dizia que as melhores coisas da vida, bem como as mais importantes, não são profissionalizadas. O amor, quando é profissionalizado, torna-se prostituição.»




Quanto ao outro autor, João Pinto Coelho, ainda não li nada dele, mas ainda bem que uma amiga escolheu oferecer-me o primeiro romance do escritor, Perguntem a Sarah Gross, que foi um dos finalistas do Prémio Leya em 2014.




Sinopse retirada do site da Bertrand: Em 1968, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura, atravessa os Estados Unidos para ir ensinar no colégio mais elitista da Nova Inglaterra, dirigido por uma mulher carismática e misteriosa chamada Sarah Gross. Foge de um segredo terrível e procura em St. Oswald’s a paz possível com a companhia da exuberante Miranda, o encanto e a sensibilidade de Clement e sobretudo a cumplicidade de Sarah. Mas a verdade persegue Kimberly até ali e, no dia em que toma a decisão que a poderia salvar, uma tragédia abala inesperadamente a instituição centenária, abrindo as portas a um passado avassalador. Nos corredores da universidade ou no apertado gueto de Cracóvia; à sombra dos choupos de Birkenau ou pelas ruas de Auschwitz quando ainda era uma cidade feliz, Kimberly mergulha numa história brutal de dor e sobrevivência para a qual ninguém a preparou.
Rigoroso, imaginativo e profundamente cinematográfico, com diálogos magistrais e personagens inesquecíveis, Perguntem a Sarah Gross é um romance trepidante que nos dá a conhecer a cidade que se tornou o mais famoso campo de extermínio da História. A obra foi finalista do prémio LeYa em 2014.



A terceira oferta é um livro de Ficção Científica cuja ação ocorre na mesma galáxia da saga Star Wars. Lost Stars, de Claudia Gray, tem como personagens principais o aristocrata Thane Kyrell e a aldeã rural Ciena Reebond, que se conhecem graças à  paixão por aviação. Sonham entrar para a Academia Imperial para se tornarem em pilotos de caça em nome do glorioso Império, o que acaba por acontecer. No entanto, Thane parece querer mudar de ideias quando vê os métodos horríveis usados pelo Império. Junta-se, então, à Rebelião, colocando Ciena numa posição insuportável. Deverá  escolher ser leal ao Império ou apoiar o homem que conhece desde a sua infância?





A quarta e última oferta foi The Nightingale (O Rouxinol, na edição portuguesa), de Kristin Hannah. Sempre quis ler este livro, pois é um romance de ficção histórica que se passa na Segunda Guerra Mundial e é muito amado por muitos leitores.


Sinopse retirada do site da Bertrand: Na tranquila vila de Carriveau, Vianne despede-se do marido, Antoine, que parte para a frente da batalha. Ela não acredita que os nazis vão invadir a França… mas é isso mesmo que fazem, em batalhões de soldados em marcha, em caravanas de camiões e tanques, em aviões que enchem os céus e largam as suas bombas por cima dos inocentes. Quando um capitão alemão reclama a casa de Vianne, ela e a filha passam a ter de viver com o inimigo, sob risco de virem a perder tudo o que têm. Sem comida, dinheiro ou esperança, e à medida que a escalada de perigo as cerca cada vez mais, é obrigada a tomar decisões impossíveis, uma atrás da outra, de forma a manter a família viva. Isabelle, a irmã de Vianne, é uma rebelde de dezoito anos, que procura um objetivo de vida com toda a paixão e ousadia da juventude. 
Enquanto milhares de parisienses marcham para os horrores desconhecidos da guerra, ela conhece Gäetan, um partisan convicto de que a França é capaz de derrotar os nazis a partir do interior. Isabelle apaixona-se como só acontece aos jovens… perdidamente. Mas quando ele a trai, ela junta-se à Resistência e nunca olha para trás, arriscando vezes sem conta a própria vida para salvar a dos outros. Com coragem, graça e uma grande humanidade, a autora best-seller Kristin Hannah capta na perfeição o panorama épico da Segunda Guerra Mundial e faz incidir o seu foco numa parte íntima da história que raramente é vista: a guerra das mulheres. 

O Rouxinol narra a história de duas irmãs separadas pelos anos e pela experiência, pelos ideais, pela paixão e pelas circunstâncias, cada uma seguindo o seu próprio caminho arriscado em busca da sobrevivência, do amor e da liberdade numa França ocupada pelos alemães e arrasada pela guerra. Um romance muito belo e comovente que celebra a resistência do espírito humano e em particular no feminino. Um romance de uma vida, para todos.



Por fim, mostro-vos um livro que comprei com parte do dinheiro que recebi na minha festa de aniversário. É um outro romance de João Pinto Coelho, Os Loucos da Rua Mazur. Apesar de ainda não ter lido o primeiro livro do autor (já que o recebi no dia dos meus anos), decidi comprar o seu segundo na mesma, pois ele estará cá, em São Miguel, no dia 24 de fevereiro. Pretendo ler os dois romances antes da sessão de lançamento d'Os Loucos da Rua Mazur, que foi o livro vencedor do Prémio Leya 2017.


Sinopse retirada do site da Bertrand: Quando as cinzas assentaram, ficaram apenas um judeu, um cristão e um livro por escrever.Paris, 2001. Yankel - um livreiro cego que pede às amantes que lhe leiam na cama - recebe a visita de Eryk, seu amigo de infância. Não se veem desde um terrível incidente, durante a ocupação alemã, na pequena cidade onde cresceram - e em cuja floresta correram desenfreados para ver quem primeiro chegava ao coração de Shionka. Eryk - hoje um escritor famoso - está doente e não quer morrer sem escrever o livro que o há de redimir. Para isso, porém, precisa da memória do amigo judeu, que sempre viu muito para além da sua cegueira. 

Ao longo de meses, a luz ficará acesa na Livraria Thibault. Enquanto Yankel e Eryk mergulham no passado sob o olhar meticuloso de Vivienne - a editora que não diz tudo o que sabe -, virá ao de cima a história de uma cidade que esteve sempre no fio da navalha; uma cidade de cristãos e judeus, de sãos e de loucos, ocupada por soviéticos e alemães, onde um dia a barbárie correu à solta pelas ruas e nada voltou a ser como era.

Na senda do extraordinário Perguntem a Sarah Gross, aplaudido pelo público e pela crítica, o novo romance de João Pinto Coelho regressa à Polónia da Segunda Guerra Mundial para nos dar a conhecer uma galeria de personagens inesquecíveis, mostrando-nos também como a escrita de um romance pode tornar-se um ajuste de contas com o passado.




E, por agora, é tudo! Já leram algum destes livros?

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Opinião: The Handmaid's Tale, de Margaret Atwood


The Handmaid's Tale, de Margaret Atwood, é uma distopia (é, também, muitas vezes reconhecido como um livro de ficção especulativa) e foca-se nas experiências de Offred como Serva (Handmaid, na versão original) numa sociedade que se rege segundo uma visão distorcida da tradição bíblica e onde os homens são os únicos capazes de governar. As mulheres apenas servem para cuidarem da casa, para desempenharem o papel de esposas ou para gerarem filhos (que é o caso das Servas), possuindo pouquíssimos "direitos", que acabam por não ser direitos propriamente ditos, até porque só existem para não porem em causa a existência da mulher como "fábrica de pessoas".Ao longo do romance, vemos, também, a vida de Offred antes da imposição de um governo totalmente masculino e conservador, bem como os seus pensamentos e sentimentos relativamente ao seu papel como Serva e à sua vida como mulher. Mas, por vezes, sentimos que Offred conta a sua história como se essa sociedade já não existisse. O que terá acontecido? Será que mudou para melhor? 


Estamos perante um romance intenso e extremamente importante na nossa atualidade. A nossa sociedade está cada vez mais marcada pela ignorância e, num sentido muito negativo, pela diferença. Aqueles que detêm privilégios e poderes não são capazes de olharem para aqueles que são diferentes e de os verem como iguais, levando a situações de ódio, de preconceito e de desigualdade. Neste romance, os que detêm os tais privilégios e poderes são homens velhos, muito religiosos e machistas. São homens que deturpam as palavras da Bíblia (não quer dizer que a Bíblia seja inteiramente "inocente") para atingirem o seu próprio fim, o de evitar o fim da capacidade de reprodução humana. São homens que não veem as mulheres como seres humanos, valorizando apenas o sistema reprodutor delas. Criam leis contra a educação das mulheres, formam hierarquias que colocam as mulheres umas contra as outras e elaboram regras que fazem as mulheres sentirem vergonha da sua sexualidade e da sua sensualidade. As mulheres não têm poder sobre os seus próprios corpos e os homens não são culpados pelas suas atitudes, consideradas "naturais", mas as mulheres são. Elas é que têm que proteger a sua dignidade, eles não.


How has Margaret Atwood's 1980's The Handmaid's Tale novel such political relevance?
Imagens da adaptação televisiva de The Handmaid's Tale.



Não acham tudo isto familiar? Hoje em dia, os direitos das mulheres (principalmente, quanto ao que podem fazer em relação ao seu corpo ou à sua vida sexual) são atacados por argumentos religiosos. Mantém-se, ainda, a ideia de que as mulheres são demasiado sentimentais e, portanto, pouco racionais para terem uma opinião objetiva. Muitas vezes, as mulheres lutam umas contra as outras porque revistas, concursos, filmes, etc., assim o exigem para que haja "entretenimento" e lucro. Quantas vezes vemos uma mulher, vítima de assédio sexual ou de violação, a ser culpada por ter vestido uma determinada roupa, por ter bebido demasiado ou por estar fora de casa até tarde? Quantas vezes vemos uma mulher a ser chamada de "p*ta" por mostrar um pouco de pele ou por ser muito ativa sexualmente? Quantas vezes não vemos uma mulher a ser criticada por não querer ser mãe ou não querer ter uma vida de casada?
Este romance faz-nos colocar todas estas perguntas e faz-nos pensar seriamente em como as relações de poder têm de ser redefinidas. É urgente haver manifestações, é urgente atuarmos. É urgente sermos humanos.


Como podem ver, é um livro carregado de ideias feministas, embora a autora nunca seja muito clara quando lhe perguntam se considera o seu romance feminista. Ainda assim, sim, tem muitas ideias feministas. Com todas as desigualdades e injustiças mencionadas anteriormente, e que também foram expostas no livro, vê-se a defesa da mulher como o ser humano que é. O feminismo não é mostrar que as mulheres são anjos e que são superiores aos homens. É mostrar que são tão humanas como os homens. Temos imperfeições, somos seres racionais, merecemos direitos. Mostra que temos o poder da escolha. Podemos escolher ser mães, podemos escolher não ser mães. Podemos escolher casar, podemos escolher não casar. Podemos escolher ser donas de casa, podemos escolher não ser donas de casa. Podemos escolher ocupar um lugar importante na sociedade, podemos escolher não ocupar um lugar importante na sociedade.

Vencedora do Emmy 'The Handmaid's Tale' vai passar no Brasil
Elisabeth Moss como Serva Offred na adaptação televisiva. A hierarquia é marcada pelas roupas diferentes. As Servas vestem vermelho e branco.




Ao lerem este romance, não podem dizer que a escritora tinha como intenção declarar que todos os homens são machistas e ignorantes. Na realidade, há exemplos de homens que reconhecem o seu privilégio e querem ajudar a protagonista, colocando, até, a sua vida em risco. Aliás, deve ser isso que Atwood quer como resultado: levar os homens a entenderem os privilégios que têm e que devem educar-se e saber ouvir para que, assim, consigamos resolver problemas que afetam toda a gente.
Apesar de não ter sido escrito de acordo com o ramo feminista que hoje é mais defendido, o feminismo interseccional, o livro mostra, também, como esta distopia, por exemplo, prejudica as lésbicas, vistas como "traidoras de género", ou seja, como são mulheres, deveriam querer homens nas suas vidas, quer sexual, quer emocionalmente. Isto não é tão profundamente retratado como o caso de Offred, que, na sua vida anterior, era casada com um homem e chegou a ter uma filha dele, mas parece que a autora tinha consciência da forma como a nossa sociedade vê a comunidade LGBTQIA+. Ainda assim, a mensagem peca por valorizar mais os problemas que uma mulher heterossexual enfrenta em comparação às pessoas que se identificam de outra forma relativamente ao seu género e à sua sexualidade.
Um outro defeito na mensagem é a ausência de "people of color", isto é, de "pessoas de cor", de etnias e raças diferentes. Por exemplo, as "mulheres brancas" têm, de facto, mais privilégios do que as "mulheres de cor" simplesmente devido à cor da pele e às ideias a ela associadas. No entanto, nada disto é explorado neste romance, pois nem há menção de "pessoas de cor", nem em cargos de poder, nem a ocupar outros papéis nesta sociedade distópica.





Depois de falar da mensagem de The Handmaid's Tale, está na altura de falar do livro quanto às personagens e à escrita. Offred é, sem dúvida alguma, uma das personagens "cinzentas" mais interessantes que já conheci. "Cinzenta" em relação à sua moral e à sua forma de pensar. A autora, de facto, criou pessoas. Offred é uma mulher que, antes de ser Serva, tinha o seu emprego e se casou com um homem que, na realidade, já era casado quando se conheceram e se envolveram. É um livro que defende os direitos das mulheres, mas não quer dizer que as mulheres sejam totalmente boas, e isso só vem reforçar o facto de as mulheres, realmente, serem seres humanos. Uma outra personagem interessante é o "Commander", ou seja, o homem com o qual Offred é forçada a ter relações sexuais para que possa conceber uma criança. Ele tem atitudes muito opostas, na medida em que ele vê a dor de Offred e quer tornar mais suave (o que nunca seria possível) a vida dela, mas não reconhece que as mulheres vivem segundo uma hierarquia injusta e cruel.
Quanto à escrita, é aí que retiro alguns pontos ao romance, pois demorei a habituar-me ao estilo da autora. O romance é feito de flashbacks e de momentos do (suposto) presente de Offred, mas não foi isso que achei estranho. Simplesmente fiquei surpreendida por o seu estilo ser muito marcado pela descrição e por um certo caráter poético. Apesar disso, acabei por gostar da escrita depois das primeiras cem páginas.


The Handmaids Tale Joseph Fiennes: The Handmaid's Tale Is What Happens When Men Have Too Much Power
Joseph Fiennes como Commander Fred na adaptação televisiva.


Em conclusão, The Handmaid's Tale é surpreendente e poderoso. É uma grande arma contra a ignorância e um grande aliado na luta contra os problemas de género. É útil para começar discussões importantes sobre grandes temas, como a importância do feminismo e o papel das minorias e a forma como são tratadas. É revoltante e chocante. Mas, afinal de contas, o que seria a arte sem a sua capacidade de chocar?


Classificação: 4/5 estrelas.



quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Mais um habitante novo na estante!

Na passada segunda-feira, fui às compras e, claro, fiquei algum tempo a ver se havia livros interessantes no Continente. Havia, então, por exemplo, Mulher-Maravilha- Dama da Guerra, de Leigh Bardugo. Este livro é o primeiro de uma coleção focada nas versões mais jovens das figuras mais notáveis do universo DC Comics. O primeiro livro, como é óbvio, é sobre a Mulher-Maravilha. Já saiu, nos EUA, o segundo livro, sobre o Batman, e, mais tarde, sairá um sobre a Catwoman e, por fim, um sobre o Super-Homem.




Sinopse retirada do site da Bertrand:
Todas as lendas têm um início. Diana tornar-se-á uma lenda, mas primeiro deverá enfrentar uma jornada (i)mortal! 

Diana: Filha de Imortais 

Da ilha das imortais Amazonas, a princesa Diana apenas pode observar o Mundo dos Homens, sem interferir. Mas no momento em que assiste a um naufrágio, e a vida de uma rapariga corre perigo, o instinto da princesa fala mais alto. Ao socorrer e trazer uma mortal para a ilha, viola uma das regras sagradas e arrisca-se a ser exilada. Pior ainda, esta não é uma rapariga qualquer e, ao salvá-la, Diana pode ter condenado o mundo. 

Alia: Filha da Morte 
Depois de o barco explodir, Alia Keralis luta pela vida. Não sabe que a tentam matar. Não sabe quem é aquela jovem misteriosa e incrivelmente forte que aparece em seu auxílio. E não sabe que ela própria é uma Dama da Guerra, descendente direta de Helena de Troia, uma linhagem condenada a trazer a guerra ao mundo. 

Irmãs de Armas 
Enquanto todos procuram assassinar Alia, a Dama da Guerra, para evitar que o mundo tenha um fim trágico, a princesa Diana sabe que há outra solução. Mas para isso terá de abandonar a sua ilha, entrar no Mundo dos Homens e enfrentar perigos inimagináveis. Uma verdadeira demanda que exigirá a confiança e a coragem de ambas para, como irmãs, enfrentarem as forças da guerra.


Como já tinha lido um número suficiente de opiniões acerca deste livro, e porque fiquei maravilhada com esta personagem depois de ver o filme Wonder Woman, decidi comprar o livro.

Já leram este livro? Acham interessante a adaptação para romance de personagens de banda desenhada?



segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Primeira aquisição literária de 2018!

E, no sétimo dia de 2018, realizei a minha primeira compra literária do novo ano! Optei por um autor português que ainda me é desconhecido, João Tordo.


Há sempre um burburinho quando João Tordo publica um livro, principalmente desde que recebeu o Prémio Literário José Saramago em 2008. 

Sempre li muitas críticas positivas acerca d'O luto de Elias Gro, publicado em 2015. É o primeiro de uma trilogia que já se encontra completa. Portanto, quando vi este livro na Bertrand, decidi que era altura de o comprar.



Sinopse retirada do site da Bertrand:
Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais. 
A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbert, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar. 
O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios no local que escolheu para se isolar: um farol abandonado, à mercê dos caprichos da natureza - e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passo a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto, e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor. 
O luto de Elias Gro é o romance mais atmosférico e intimista de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso.







Quando chegar a altura de o ler, espero gostar do livro!

E vocês? Já leram algum livro de João Tordo?





sábado, 6 de janeiro de 2018

Opinião: Winter (#4 The Lunar Chronicles), de Marissa Meyer



Winter é o quarto e último capítulo da luta de Cinder contra a rainha de Luna, Levana. Neste livro, acompanhamos a princesa Winter, a adaptação da Branca de Neve. Winter é enteada da rainha Levana, que não gosta dela, pois o povo de Luna venera e ama imenso a inocente rapariga que, ao contrário dos restantes habitantes de Luna, não usa os seus poderes de manipulação. Por isso, passou a vida a ver coisas que não existem e é gozada pela corte que, ainda assim, a admira. Tendo como único verdadeiro amigo um fiel guarda, Jacin, Winter faz todos os possíveis para que haja justiça no reino da madrasta. Junta-se, então, a Cinder e aos restantes elementos do grupo que pretende libertar não só o planeta Terra, mas também Luna das garras do reinado de horror de Levana. Finalmente em Luna, mas sofrendo ataques planeados pela malvada rainha, como irá Cinder ter sucesso na sua demanda?


Winter foi um desfecho maravilhoso desta coleção de Ficção Científica fantástica. Nota-se o cuidado em ter um final estrondoso e bem planeado, para que não fosse um fim rebuscado e forçado. Com um ritmo um pouco mais lento do que os restantes livros, este último volume mostra melhor que, de facto, há uma guerra a acontecer e que não há tempo para conflitos amorosos, embora o amor esteja sempre presente como uma força que move e inspira as pessoas. Aborda questões sensíveis como a saúde mental e a importância da beleza numa sociedade superficial e obcecada pela ideia de perfeição e de poder. É aqui que as personagens se desenvolvem ainda mais e se tornam cada vez mais reais. A escrita também é mais cuidada e nota-se a maturidade criativa.


Fanart de Winter.


Em relação à linha narrativa, gostei de como a autora equilibrou a sua paixão por Sailor Moon com a tradicional história da Branca de Neve, adicionando a sua capacidade de transformar história já muito conhecidas. É o livro mais "pesado" por retratar mortes, dor, cenas de luta e de tortura, mas não ficam de lado o amor, a amizade e a esperança. Adorei os elementos que nos fazem lembrar a história da Branca de Neve, como a substituição da maçã envenenada por um doce contaminado pelo vírus que tanto assombra a Terra e uma máquina hospitalar a substituir o caixão de vidro. É também inteligente usar as personagens principais dos restantes livros como representantes dos Sete Anões. Portanto, o trabalho de adaptação/transformação foi muito bem executado e este livro foi o melhor nesse aspeto.



Fanart de Winter.



A escrita é mais versátil. À medida que lemos os diferentes pontos de vista das personagens, é notável a capacidade em realçar a personalidade da personagem que é destacada num determinado capítulo. Embora não tenhamos um narrador autodiegético (em primeira pessoa), a autora é suficientemente talentosa em transmitir a essência das personagens nos diferentes capítulos em que se destacam.


Quanto às personagens, vê-se o crescimento relativamente às prioridades atribuídas à formação das mesmas. Por exemplo, nos livros anteriores, notava-se mais a presença do amor entre os pares e, em Winter, temos isso em segundo plano e o leitor fica com a ideia de que, afinal, isto não é um conto de fadas. É também interessante a exploração da temática "bem vs. mal", na medida em que as personagens consideradas boas percebem que, por vezes, é necessário cometer erros e recorrer a atitudes que pertencem ao lado do "mal".





Em suma, Winter é um livro não só espetacular a nível formal, como também quanto às personagens que habitam este universo extremamente interessante e não tão diferente da nossa realidade. Tem muitas lições fundamentais para a sociedade, como a importância da igualdade de direitos, o caráter prejudicial do racismo e a aceitação da diferença como meio caminho andado para uma solução pacífica. Esta coleção, em geral, não é um conto de fadas, mas apresenta um mundo fascinante.




Classificação: 4.5/5 estrelas.




sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Opinião: Cress (#3 The Lunar Chronicles), de Marissa Meyer



Cress é o terceiro livro da coleção The Lunar Chronicles, de Marissa Meyer. Desta vez, estamos perante uma adaptação de uma outra história conhecida do público geral, a da Rapunzel. Aqui, temos Cress, uma rapariga ingénua e inteligente que passou grande parte da sua vida num satélite a servir, como especialista informática, a rainha Levana. Ao entrar em contacto com Cinder e o grupo de novos amigos dela, Cress compreende que pode remediar os erros que fez sob o comando de Levana e concretizar os seus sonhos. Mas os planos não correm bem quando acaba num deserto com o "capitão" Carswell Thorne, um jovem rebelde e engraçado. Como irá Cinder conseguir desafiar a rainha Levana ao enfrentar tantos obstáculos? Como irá Cress lidar com uma realidade totalmente diferente daquela que conhecia desde criança?





Foi um enorme prazer este livro! Meyer, neste terceiro volume, mostra que as mulheres fortes não têm que ser necessariamente apenas guerreiras. Podem ser tudo o que quiserem. Aqui, temos uma rapariga que nunca tinha saído do seu satélite e, por isso, era muito sonhadora. Nunca teve grande contacto humano, mas isso não a tornar incapaz de sentir compaixão. Apesar de ter traços típicos de uma "donzela em apuros", ela não deixa que o medo e ansiedade vençam e avança com os seus planos. Além disso, a sua "profissão" não é vista como sendo comum para mulheres, pois é uma "hacker" e possui um excelente conhecimento informático. Todas estas inovações foram muito bem conjugadas com a história da Rapunzel. Contudo, neste caso, embora Cress seja salva por um rapaz e tenha estado presa num satélite (o que foi uma estratégia muito inteligente para substituir a tão conhecida torre e adaptá-la a esta coleção de Ficção Científica), ela não é tão fraca como aparenta ser, simplesmente é forte à sua maneira.
Carswell Thorne é uma das personagens masculinas mais engraçadas de sempre. Brincalhão, sedutor, aventureiro, mas com um coração mole. Ele aprende imenso acerca de si próprio e o mesmo acontece com Cress em relação a si mesma. Formam um casal que é capaz de derreter o coração de qualquer leitor. Este casal é um dos meus favoritos agora.
As restantes personagens, como Cinder, Scarlet, Kai e Wolf, também aparecem neste livro e os fios narrativos de cada um conjugam-se perfeitamente com os fios de Cress e de Thorne, sendo que há uma junção muito bem conseguida ao longo da leitura. É essa mesma junção que, na minha opinião, tornou esta coleção conhecida pelo mundo fora.


Fanart de Cress no satélite.



Não posso dizer nada de novo em relação à escrita, nem quanto à forma como o enredo é criado e apresentado. A escrita continua simples e cativante. A construção da história em relação ao conto que tem como base, tal como os livros anteriores, é impecável. Acrescento que, neste caso, foi ainda mais original. A escritora desafiou ainda mais esse processo de adaptação e é a já conhecida profundidade de personalidades que reforça isso mesmo.



Fanart de Cress inspirada no filme Entrelaçados.



Em conclusão, Cress foi, para mim, uma experiência fantástica, que aqueceu o meu coração com personagens encantadoras e uma história sobre o poder e a força que temos, mas que podem estar muito bem escondidos no nosso interior. É, ainda, um livro importante por mostrar uma grande variedade de personalidades, principalmente as das personagens femininas. É mais uma prova de como a Ficção Científica não é apenas para "rapazes", mas sim para todos os que simplesmente apreciam a aplicação da ciência na ficção.




Classificação: 5/5 estrelas.




terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Ofertas de Natal!!!

Começo por desejar a todos um Feliz Ano Novo!

Na primeira publicação de 2018, pretendo mostrar-vos dois livros que recebi no Natal (e que foram encomendados através da Book Depository), bem como um livro que comprei com algum do dinheiro que recebi na quadra natalícia.

O primeiro que recebi foi The Handmaid's Tale, de Margaret Atwood. Este livro tem sido muitas vezes mencionado devido à adaptação televisiva, que estreou em abril de 2017 e já conta com muitos prémios, incluindo o Emmy de Melhor Série Dramática . Além disso, muitos feministas veem este romance como uma ótima forma de abrir os olhos de quem acha que as mulheres não sofrem devido aos preconceitos de género.
Comecei a ver a série esta semana. Vi apenas quatro episódios, mas estou a adorar. É maravilhosamente chocante. Não me sinto mal por estar a vê-la antes de ler o livro, pois o romance foi escrito em 1985 e, na série, a história passa-se no século XXI, ou seja, há diferenças bastante significativas. Mas, quando acabar a leitura atual, irei começar a ler este livro.



Sinopse da versão portuguesa retirada do site da Bertrand:

Uma visão marcante da nossa sociedade radicalmente transformada por uma revolução teocrática. A História de Uma Serva tornou-se um dos livros mais influentes e mais lidos do nosso tempo. 
Extremistas religiosos de direita derrubaram o governo norte-americano e queimaram a Constituição. A América é agora Gileade, um estado policial e fundamentalista onde as mulheres férteis, conhecidas como Servas, são obrigadas a conceber filhos para a elite estéril. 
Defred é uma Serva na República de Gileade e acaba de ser transferida para a casa do enigmático Comandante e da sua ciumenta mulher. Pode ir uma vez por dia aos mercados, cujas tabuletas agora são imagens, porque as mulheres estão proibidas de ler. Tem de rezar para que o Comandante a engravide, já que, numa época de grande decréscimo do número de nascimentos, o valor de Defred reside na sua fertilidade, e o fracasso significa o exílio nas Colónias, perigosamente poluídas. Defred lembra-se de um tempo em que vivia com o marido e a filha e tinha um emprego, antes de perder tudo, incluindo o nome. Essas memórias misturam-se agora com ideias perigosas de rebelião e amor.




Recebi Little Fires Everywhere, de Celeste Ng, depois do Natal, uma vez que foi também uma encomenda, mas, ao contrário do livro anteriormente apresentado, este não chegou a tempo. Em 2017, foi um livro muito bem recebido nos EUA e muito escolhido por clubes de leitura. Recebeu, ainda, um Goodreads Choice Award na categoria de Ficção. Em Portugal, já foi editado um livro da autora, Tudo o que ficou por dizer.



Sinopse (traduzida por mim) retirada do site do Goodreads:

Em Shaker Heights, um subúrbio progressivo e plácido em Cleveland, tudo é planeado, desde o esboço das estradas sinuosas até às cores das casas e as vidas bem sucedidas dos seus moradores. Ninguém representa este espírito melhor do que Elena Richardson, cujo princípio que a guia é é o de seguir as regras.

Mia Warren, uma artista enigmática e mãe solteira, chega a esta bolha idílica com a sua filha adolescente, Pearl e aluga uma casa dos Richardsons. Em breve, Mia e Pearl tornam-se mais do que inquilinas: todos os quatro filhos dos Richardsons sentem-se atraídos pelo par. Mas Mia carrega consigo um passado misterioso e um desprezo pelo status quo que ameaça mexer com esta comunidade cuidadosamente ordenada.

Quando velhos amigos da família Richardson tentam adotar um bebé sino-americano, uma batalha pela custódia entra em erupção, dividindo drasticamente a cidade e colocando Mia e Elena em lados opostos. Suspeitando de Mia e dos seus motivos, Elena está determinada a descobrir os segredos do passado de Mia, mas a sua obsessão resultará em custos inesperados e devastadores. 






Por fim, temos a última aquisição literária de 2017, It, de Stephen King. Vi a adaptação cinematográfica de 2017 e adorei imenso! Como o enredo do filme apenas se focou, mais ou menos, na primeira metade do livro, não estou preocupada por já saber um pouco da história. 

Sinopse (traduzida por mim) retirada do site da Book Depository:

Para as crianças, a cidade era o mundo. Para os adultos, agora sabendo melhor, Derry Maine era apenas a cidade-natal: familiar, ordenada na maior parte. Um bom lugar para se viver. São as crianças que veem- e sentem- o que torna a pequena cidade de Derry tão horrivelmente diferente. Nos esgotos, IT (A Coisa) esconde-se, transformando-se em qualquer pesadelo, no pior medo de cada um. Às vezes, IT sobe, para perseguir, rasgar, matar... O tempo passa e as crianças crescem, afastam-se e esquecem, até que são chamadas para confrontar novamente IT, enquanto ele se agita e serpenteia nas profundezas sombrias das memórias deles, voltando a alcançá-los para tornar os seus antigos pesadelos numa realidade atual terrível.




Por agora, é tudo. Ao longo da semana, tentarei publicar opiniões de leituras do ano passado. Receberam livros nesta quadra natalícia?





sábado, 23 de dezembro de 2017

Compras acumuladas!

É tão bom estar de férias, porque isso significa que agora tenho tempo (e energia) para escrever publicações aqui no blogue! E aqui está a primeira após uma longa ausência!



Os três primeiros livros foram adquiridos numa feira do livro que se situa em Ponta Delgada e os outros dois foram comprados no hipermercado Continente.






Estudei Auto da Barca do Inferno no nono ano e lembro-me de gostar das aulas dedicadas a esta obra. Agora, tenho-a na estante!



Sinopse retirada do site da Bertrand: O Auto da Barca do Inferno, dito na primeira edição impressa, em 1518, para «contemplação da sereníssima e muito católica rainha Lianor, nossa senhora, e representado por seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei Manuel, primeiro de Portugal deste nome» e qualificado nessa mesma edição como «Auto de moralidade», foi representado pela primeira vez em 1517. No início da peça, o autor «declara» (esclarece) o argumento, explicando que as almas, depois de se libertarem dos seus corpos terrestres, se dirigem a um braço de mar onde duas barcas as esperam: uma delas, conduzida por um Anjo, levará as almas ao Paraíso; a outra, tripulada pelo Diabo e pelo seu Companheiro, rumará ao Inferno













Apesar de, até agora, não ter gostado das obras de Agustina Bessa-Luís que li (não concluí A Sibila e não gostei muito do Vale Abraão, romance que tive de ler para a Universidade), decidi comprar Fanny Owen, porque falaram sobre este livro no programa Literatura Aqui, que passa na RTP2. Fiquei curiosa e decidi dar mais uma oportunidade à autora. Será que à terceira é de vez?

Sinopse retirada do site da Bertrand: Escritora torrencial, com mais de meia centena de títulos espraiados por romance, crónica, teatro, conto, biografia. Norteada por uma intuição irracionalista peculiar, Agustina Bessa-Luís tem, como motivos angulares da sua obra . o sentido da vida e da morte e os enigmas do ser, o que lhe imprime uma dimensão universalista, independentemente da evocação dos espaços rurais nortenhos ou do Porto burguês.Fanny Owen (1979), trata duma história eminentemente romântica envolvendo um triângulo amoroso, rapto, abandono, despeito, ciúme e vingança, morte por tísica e por desgosto, suicídio.
Fanny corporizará o estereótipo romântico da mulher angelical e demoníaca, com uma força de atração irresistível que desperta paixões devastadoras. É uma espécie de símbolo erótico, vazia de alma, manipulada pelos dois pretendentes (José Augusto Pinto de Magalhães e Camilo Castelo Branco), enquanto veículo de desejo, de domínio e de paixão.










Comprei este livro, porque vi que Virginia Woolf admirava esta escritora (Woolf foi mencionada nas aulas de Estudos Culturais e, desde então, tenho curiosidade acerca das obras dela e daquilo que ela lia). Depois, descobri que, quando foi publicado, foi muito polémico, pois retrata uma relação lésbica. Já ouviram falar neste livro?


Sinopse retirada do site da Bertrand: O Poço de Solidão foi lançado em 1928, tal como Orlando de Virginia Woolf e provocou um enorme alvoroço em toda a Europa e na América. Foi proibido em Inglaterra, decisão que fez nascer entre os sectores mais libertários da sociedade da época um movimento de luta pela liberdade de expressão. Banido das livrarias, deu origem a uma troca de artigos inflamados entre editores e jornalistas conservadores e anárquicos e tornou-se um «sucesso escandaloso» passado de mão em mão, em cópias contrabandeadas, de Paris para Berlim e de Londres para os Estados Unidos. A personagem central do romance é Stephen, uma jovem herdeira inglesa baptizada com um nome masculino pelo pai desgostoso pelo facto de não ser «o tão desejado filho varão». A narrativa, escrita num registo ardente e sensível e com uma abordagem psicológica crua e directa, acompanha Stephen ao longo da vida e retrata a sua luta para se afirmar, apesar de cedo perceber o quão difícil é ser-se respeitado na sociedade inglesa do começo do século XX. A ingenuidade de Stephen, sempre à espera de ser aceite tal como é, uma mulher trabalhadora, com ambições e capaz de ganhar o seu próprio sustento, é verdadeiramente enternecedora. A obra deixou boquiabertos os moralistas da época, que alegavam que a mesma lançava uma luz favorável sobre comportamentos que consideravam exemplos de libertinagem. A luta pela aceitação travada por Stephen, a protagonista, confunde-se com a de Radclyffe Hall, a sua autora, que lutava contra a proibição do seu livro de uma forma panfletária e quase pré-militante que deixava irritados tanto os conservadores quanto os espíritos mais anárquicos ou libertários.











Bana Alabed só tem 8 anos, mas já viveu muitos horrores devido à guerra na Síria. Enquanto não saiu de lá, com a ajuda da sua mãe, partilhava as suas experiências no Twitter, falando sobre ataques aéreos, medo e morte. Agora, vive na Turquia e escreveu um livro, com a mãe, sobre a vida numa Síria a ser destruída aos poucos pela guerra. Pretendo ler mais livros de não-ficção e tentar perceber o que se passa no mundo e, por isso, comprei este livro.


Sinopse retirada do site da Bertrand: Quando Bana Alabed, uma menina de oito anos, acedeu ao Twitter para descrever os horrores da guerra na Síria, onde ela e a família viviam, as suas mensagens angustiantes emocionaram o mundo e deram voz a milhões de crianças inocentes. A infância feliz de Bana foi subitamente interrompida pela guerra civil no país, quando tinha apenas três anos. Ao longo dos quatro anos seguintes, ela testemunhou diariamente os efeitos de bombardeamentos, a destruição e o medo. Esta aterradora experiência culminou no violento cerco de Aleppo em que Bana, os pais e os dois irmãos mais novos ficaram encurralados, com escasso acesso a alimentos, água, medicamentos e outros bens essenciais.
Perante a permanente ameaça de morte causada pelas bombas implacáveis que caíam perto deles - uma delas destruiu por completo a casa onde habitavam -, Bana e a família não tiveram alternativa senão tentar deixar o cenário de violência em Aleppo e procurar, apesar de todos os riscos, um plano de evacuação para a Turquia. Escrito com as próprias palavras de Bana e incluindo cartas comoventes de Fatemah, sua mãe, Querido Mundo não é apenas um relato absorvente de uma família num país em guerra - é também um olhar único e pungente de uma criança sobre uma das maiores crises de sempre da Humanidade. Bana perdeu a sua melhor amiga, a escola que frequentava, o lar e a sua terra natal. Mas não perdeu a esperança - para ela e para todas as crianças do mundo que são vítimas e refugiadas de guerra e que merecem uma vida melhor.









Por fim, comprei Objetos Cortantes, de Gillian Flynn. Gostei muito de ler Em Parte Incerta e, desde então, estava à espera da altura certa para comprar um outro romance de Flynn. E aqui está ele, com 40% de desconto direto na altura em que o adquiri!


Sinopse retirada do site da Bertrand: Recém-chegada de um internamento breve num hospital psiquiátrico, Camille Preaker tem um trabalho difícil entre mãos. O jornal onde trabalha envia-a para a cidade onde foi criada com o intuito de fazer a cobertura de um caso de homicídio de duas raparigas. 
Há anos que Camille mal fala com a mãe, um mulher neurótica e hipocondríaca, e quase nem conhece a meia-irmã, uma bela rapariga de treze anos que exerce um estranho fascínio sobre a cidade. 
Agora, instalada no seu antigo quarto na mansão vitoriana da família, Camille dá por si a identificar-se com as vítimas. As suas pistas não a conduzem a lado algum e Camille vê-se obrigada a desvendar o quebra-cabeças psicológico do seu passado para chegar ao cerne da história. Acossada pelos seus próprios fantasmas, terá de confrontar o que lhe aconteceu anos antes se quiser sobreviver a este regresso a casa.






Por agora, é tudo!!! Adquiriram muitos livros durante a minha ausência?



sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Encomenda!





Ontem, finalmente recebi Never Let Me Go (na versão portuguesa: Nunca Me Deixes), de Kazuo Ishiguro. Decidi encomendar este livro logo depois de terem anunciado o nome do autor como o vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2017. Ainda assim, antes disso, eu queria ler um romance de Ishiguro, portanto, fiquei ainda mais entusiasmada depois da semana dos Prémios Nobel. Escolhi este romance, porque é um dos mais adorados pelo público e, depois, pretendo ver a adaptação cinematográfica.


Como podem ver pelas imagens, o livro chegou em boas condições e demorou, pelo menos, uma semana e meia a chegar. As minhas encomendas literárias costumam demorar duas semanas ou um pouco mais e fiquei muito contente por este livro ter chegado mais cedo do que é habitual.





Sinopse da edição portuguesa retirada do site da Bertrand:


Kazuo Ishiguro foi elogiado no Sunday Times por «ampliar as possibilidades da ficção». Em Nunca Me Deixes, que se encontra certamente entre as suas melhores obras, conta-nos uma extraordinária história de amor, perda e verdades escondidas.

Kathy, Ruth e Tommy cresceram em Hailsham - um colégio interno idílico situado algures na província inglesa. Foram educados com esmero, cuidadosamente protegidos do mundo exterior e levados a crer que eram especiais. Mas o que os espera para além dos muros de Hailsham? Qual é, de facto, a sua razão de ser?

Só vários anos mais tarde, Kathy, agora uma jovem mulher de 31 anos, se permite ceder aos apelos da memória. O que se segue é a perturbadora história de como Kathy, Ruth e Tommy enfrentam aos poucos a verdade sobre uma infância aparentemente feliz — e sobre o futuro que lhes está destinado.

Nunca Me Deixes é um romance profundamente comovedor, atravessado por uma percepção singular da fragilidade da vida humana.
CRÍTICAS DE IMPRENSA

"(...) a verdade é que este livro não é, apesar dos clones, seus protagonistas, nem estapafúrdio, nem reduzível a ficção científica (se é que essa categoria é, como alguns defendem, artisticamente inferior). Em poucas palavras, Ishiguro procura explorar, através das figuras de Kathy, Ruth e Tommy (são eles os referidos clones, concebidos como meros doadores de órgãos), as fronteiras do humano. E fá-lo de uma maneira muito curiosa, usando como lupa coisas das mais humanas que os humanos podem ter: recordações da infância, sentimentos, impulsos artísticos, traumas, segredos. Será que estes clones têm alma?"
Humberto Brito

"Já considerado como a sua melhor obra depois de 'Os Despojos do Dia' o livro 'Nunca me Deixes' foi anunciado como um dos seis finalistas do Prémio Booker deste ano. [...] O registo, em tom de 'thriller' contemporâneo pode estar longe do dos mais conhecidos romances históricos de Ishiguro, mas as questões são as mesmas: a solidão, o desajuste em relação ao mundo e a recusa em encarar uma realidade dura mas por demais evidente."
Vanessa Rato, Público, Mil Folhas




E vocês? Já leram algum livro deste autor?